domingo, 18 de dezembro de 2011

UM POEMA DE EGELANE DAMASCENO


Expulso pela boca,
A boca cheia de rancor.
Alma esmorecida zarpava ao amanhecer.
Litros e litros de lembranças e lágrimas.

Afoguei meu coração em um tanque de óleo diesel.
Sou uma inoxidável criatura ruminante.

Egelane Damasceno

quinta-feira, 19 de maio de 2011

POEMA ZEN

Para Husman Nobre

Na entrada da casa há o além-mar
Sob o tremeluzir da lua o deixar-se ir
Onde se dorme cantam os espelhos
Logo o gato em negro veludo

Faz-se âncora

A noite se fixa no acaso
Devora alguns corações
Dá outra chance ao chegar
Telhas decolam...
Sonatas ao luar...

Entra o gato onírico
Só nos resta embarcar

sábado, 30 de abril de 2011

domingo, 6 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

CONVITE



~~~~~O FLUTUANTE E OS HEBDOMADÁRIOS~~~~~

DRAMATIS PERSONAE

O FLUTUANTE
TIRÉSIAS (BRIZOMANTE)
O CARRASCO
O ARAUTO
A RAINHA
SERIN (ESPECTADOR)
FLORIN (ESPECTADOR)
DESDÊMONA (CARPIDEIRA/STRIPPER)
SISIFRIDUS (PSICOPOMPO)
A VÊNUS SONÂMBULA
AS PARCAS
GILLES (PSEUDO-ESTILITA/DESPROGRAMADOR SOCIAL)
DELEUS (PSEUDO-ESTILITA/DESPROGRAMADOR SOCIAL)

~PRIMEIRO ATO~


CENA I

Gilles está sentado confortavelmente em um poltrona colocada em cima de uma coluna, uma dentre tantas outras que fazem as ruínas de Atenas acontecerem. Os espectadores se reúnem em torno dessa coluna e procuram entender as sábias palavras desse pseudo-estilita. Florin faz-lhe algumas perguntas.

Florin - Quem és tu, santo homem?
Gilles - A cauda maior da causa perdida.
Florin - (perplexo diante da resposta) Quem é tu então?
Gilles - Sou minha imaginação.
Florin - Como?
Gilles - Minha história só eu sei...
Florin - (cortando) Onde encontro o Flutuante?
Gilles - Boa pergunta. Há várias representações possíveis, a mais aceitével, porém, é a sua singular representação noturna: quando vertiginosamente é meia-noite. Nesse momento, mas quem poderia negar, o Flutuante entende que o mundo não lhe pertence; que a realidade é uma criação dos bonecos instituídos; sabe que sua existência depende de nossa desvairada concisão de visionário, totalmente, ou pelo menos na sua grande maioria, desprovida de objeto. Somos para ele meras formas isoladas, cinza no tapete ou quem sabe apenas alguns pés molhados, ou seja, somos pasto para o boi-sol e ele a caótica razão de "existir-se". Não obstante, o Flutuante, anti-Édipo à janela, cruel-de-ló, é uma realidade indizível, a última fronteira entre nós e os espectadores que ainda não conseguiram largar seus hebdomadários. É um absurdo afirmar que isso nada tem a ver com a quadrúmana lua ou com a circunfluência dos dias: dias intranquilos que estalam por causa dos sete chicotes do zarpar. Lembre-se de que os expectadores, com seus hebdomadários, sempre estancam abismados diante de uma fragata que desliza impudica, pois provoca-lhes prazeres inavegáveis. A obscura aproximação do Flutuante, intensos penelopismos, confunde-se com a sensação que atormenta a todos e adensa-se, consideravelmente, com a chegada da noite. Na pálida festa, há menos expectadores do que hebdomadários e ...
Florin - (cortando) pouco a pouco levantarei minha mão, embora não a compreenda.
Gilles - E sua mulher, senhor, que é a ociosidade em pessoa.
Florin - Mes doigts entre l'alcove et les reliefs du Modern-Style.
Gilles - (perplexo) Boa resposta. Há inúmeras representações. Uma delas é parar numa esquina e consolar um travestido.

sábado, 18 de dezembro de 2010

POEMAS DE LAMANTIA




Litografias de Toyen

PARA COMEÇAR ENTÃO, NÃO AGORA

A claraboia inunda
Quando tu entras em minha voz
Levando uma caixa de fogo
Completamente silenciosa
Te abres à força encantada
Pelos mistérios do sonho

NO DOMÍNIO DE EMU

para Franklin Rosemont

Como um túmulo aberto que irradia uma risonha couve-flor
Algo assim como uma árvore gravando seus pés
Em um leopardo
De olhos quadrados
As luas e o pão competem pelo gosto entre
Os corações
De diamante

Do outro lado do lago do ser o vento fuma
Chamas tubulares
As cadeias estão tranlando corvos
As placentas refratadas na torre deserta
Da tormenta
Substituem a rua dos deslumbres
Submergida novemante em
Sua oculta saída
Enquanto a cidade desperta como um flor de
Cavalheiros
Amantes

VIBRAÇÃO

Há um vento que tortura os morcegos
E estão as plantas chamuscadas por sóis mortos
A cidade perfilada com o mar
Onde os abismos de pterodáctilos me chama
Há uma espiral de terror animando minha mente
E o zumbido do esqueleto da solidão
Onde florescem cadáveres furiosos numa garrafa
E armas vermelhas se desvanecem nos espelhos

Olho para trás pela folha de meu duplo
Ali voa - através de sua vista - O Enforcado
Onde uma pirâmide de água se aproxima
Entre os alimentos da vida interior


O ELEMENTO QUE AMAS


Posso te ver desde os cascos navegando na praia cheia de cimento, indicando-me o arco caído de um cometa que enche o rio de um falcão, um encontro surpreso submergindo os faróis.

Um vencedor emboscado em sua pirâmide voadora, ocre é a janela do saudável espelho... e um estrondo de portas alude a um leão, por aqui e por lá, mostrando displicentemente damas fugaces a ponto de se desvanecer no escudo das armas da chuva, donde os desejos civilizados emplumados com inanidades anti-cefálicas rogam a seus convidados que se acorrentem.

Nada menos que um centavo polido quando dispara a suja luz dos predadores que se escondem nos portos libertados por uma mulher e pela água, penteando um vítreo vestido putas-em-mão e uma ave cujo bico se suaviza até voltar-se para seu lacre de poesia líquida.