quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Mário Cesariny a esbofetear respeitáveis hipócritas

Toco fogo num cigarro para começar incêndio
Minha assuada para debilidade geral
Tomo um trago e leio alguns poemas
Para o fantasma que está logo em frente
Parada (frações de) Louvor e simplificação de Álvares
De Campos e outros (em sentido longitudinal) outros
Outros sítios outras vozes em minha cabeça giratória
Pára-brisas estilhaçados Portugal que flutua
Indizível na diminuta distância
Enquanto afasto o mim impróprio do eu exemplar
Mas não importa! O que importa é o repertório
Amoroso das mulheres fixado no meneio
De seus quadris demasiados
É a mudança repentina da direção do vidro
É o enterro dos telejornais
Afinal o que se leva em conta hoje
É a reles imitação do fogo
Reparo na chama sem preço na ponta
Do palito e seu inestimável valor
Então vou ter com as palavras momentos
Contrários ao bom gosto do freguês
Vislumbres da vida que vibrem como vime
Quando viver é tantas vezes apontado para o nada
Dentro do saco sartreano e outras (as melhores) é sentar-se à mesa
Despreocupado tomar um gelada e deitar chamas no papel
Atentar na cara do sujeito dono do bar
Ávido em saber o que tanto rabisco
Enfim Mário Cesariny ou
A noite inexplicável ou o dia aéreo
Diante dos quais os submarinos da mobília
Estancam narcotizados como velhas flautas azuis
Pois bem! Eis a tua mão indormível
Tua mão sai em liberdade a caminhar por
Lisboa desfibrando sombras investindo
Contra todos os pensamentos
Até chegar ora pois no Chiado.
Talvez venha a ser ela possuída
Por um segredo que ensurdece
Talvez venha a ser ela seguida
Pela cona florestal da cabeleireira
Talvez venha a ser ela conduzida
Pela tempestade dos cotovelos
Ou por uma libanomante chamada
Sobekneferu que porcelana nua
Sobre as águas eqüestres do Nilo
O melhor da festa é que uma data de gente
Aglomera-se em torno de tua mão
No instante mais grave do dia
Talvez venha a ser ela a forma mais
Espontânea do soco escultural
A esbofetear com sal e muitíssimo
Gosto as fuças de respeitáveis hipócritas
Gente civilizadamente mecânicas
Padres misaraves milicos a destripar micos
gente de trapaça policos do logro
advorazes juristas agiotas...
Gente bem-educada que escreve
Eternamente com suas mãos duplamente vazias
Enfim Mário Cesariny a esmurrar
A corja do lucro das letras do pensamento fraco
Para em seguida bater à porta da lápide
Finda o poema sem mais nem menos
E o dono do bar me traz outra cerveja

Outra cerveja a rua automóveis
Atropelam Sombras que ficavam
À mesa do passado
Desperta o póstumo QUE
Enquanto surreais levam tua mão
Para o dormitório entre duas estrelas
Finalmente fico a dever-te um fim
Um final como quadros ou palavras
Que quedam de quando em vez
E se misturam com pedaços de chão
Restos de noites
E são liquidificados pelo tempo
E se erguem gatos
(animais que esfigem viajantes edipingados)
Uma cena como esta não pode ser
Absorvida pela morte mas
Somente por aqueles que vêem
Um infinito QUE dentro da amendoída
Casca de cada QUE humano

Um comentário:

Wagner disse...

Caralho!
Monstro! Monstro! Monstro!
Você é o "meu" outro... de olhar negro... desviado amado... mal-ajustado... lúgubre transeunte das coisas, das horas e dos vícios...
Estou de cara!
Deu-se e ainda instalou-se um nó que há muito não sentia...
Sinto falta das leituras que faço do que você escreve... os nós e espasmos naturalmente são meus mas... você é essencial na desorganização estável que mantém meus impulsos em direção ao viver instintivo.
Fui e sempre serei seu fã, que venham mais dentes...
siga a trilha deixada pelo verme e morda a maçã... chupe o sumo da fadiga e de todas as palavras contidas nas coisas!

Grande abraço,
saudades,
Wagner.